“Em vez de tirar dinheiro das facções, o relator optou por tirar recursos da Polícia Federal.”
Se o combate ao crime organizado fosse novela, o deputado Guilherme Derrite seria o autor e protagonista de um roteiro que já passou por quatro capítulos — todos com o mesmo final: a Polícia Federal saindo de cena com o orçamento derretendo e os políticos disputando o papel de herói nacional.
O projeto, apelidado de “PL Antifacções”, começou com um propósito nobre: asfixiar financeiramente as facções criminosas e reforçar a inteligência entre as forças de segurança. Quase uma utopia republicana. Mas, depois de tanto vai-e-vem, o texto acabou virando uma espécie de manual prático de como desfinanciar a própria polícia — uma façanha digna de registro histórico.
A quarta tentativa do mesmo erro
Na quarta versão apresentada às pressas por Derrite, sumiram as propostas mais escandalosas — como a que obrigava a PF a pedir bênção dos governadores antes de investigar crimes nos estados. A ideia, vendida como “cooperação federativa”, era tão constitucional quanto usar uma peneira pra segurar água. Caiu com o peso da reação.
Mas, como diz o velho ditado, quem recua, mas não aprende, volta a tropeçar no mesmo buraco. O novo relatório ainda corta recursos dos fundos nacionais de segurança, aqueles que bancam desde operações contra o tráfico até o café amargo das delegacias. O governo federal resume a ironia em uma frase:
“Em vez de tirar dinheiro das facções, o relator optou por tirar dos fundos da segurança pública.”
Traduzindo: a PF que lute. Se faltar gasolina para as viaturas, que se compense com fé e boa vontade — ou, quem sabe, com estilingues de longo alcance e mira a laser, o novo equipamento tático idealizado pelos governadores em Brasília.
A Torre de Babel dos Governadores
Como se não bastasse, os governadores resolveram entrar na novela. Pediram a Hugo Motta, presidente da Câmara, que adiasse a votação. E não pense que foi por divergências ideológicas — afinal, todos se dizem “a favor da segurança”. O problema é o timing. Cada um quer sair bonito na foto para 2026, e nenhum está disposto a dividir o crédito da pauta.
O detalhe saboroso: o governador Tarcísio de Freitas, padrinho político de Derrite, foi o grande ausente na reunião. Nada mais simbólico: indicou o relator, mas não apareceu pra defendê-lo. Brasília tem dessas ironias — os aliados são de ocasião e as ausências falam mais alto que os discursos.
Escondidos entre os palanques
O PL Antifacções virou o espelho perfeito da política nacional: todo mundo diz que quer combater o crime, mas o verdadeiro campo de batalha é o orçamento da PF. Enquanto isso, o projeto, que deveria unir forças, se torna uma arena de egos e conveniências.
O governo diz que o texto “não resolve nada”. Derrite insiste que “melhorou muito”. E o cidadão, lá fora, assiste a tudo com a mesma sensação de sempre: a de que a segurança pública virou palanque, e o combate às facções, um figurino eleitoral.
Quanto Pior, Melhor
Em Brasília, ergue-se uma torre de Babel às avessas. Diferente da história bíblica, onde se tentava alcançar o céu, a versão “Brasuka” parece construir alicerces cada vez mais profundos no pântano da conveniência política. A máxima que ecoa nos corredores de Brasília já não é mais “ordem e progresso”, e sim:
“Quanto pior, melhor.”
Fonte: Brasília/Congresso Nacional /Redação: Eraldo Costa / Imagem: Nano Banana














