“Lado B”: 31 malas para Dubai e a mesada de R$ 250 mil — a vida dupla dos fraudadores do INSS entre honrarias, codinomes e alcunhas.
A Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal (PF), desvendou um esquema de corrupção que desviou cerca de R$ 640 milhões dos salários de aposentados do INSS. A investigação, centrada na Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer), revelou um enredo que transcende as cifras, expondo detalhes inusitados sobre a vida dos envolvidos.
A Ironia dos Codinomes: De “Heróis” a “Italiano”
Para blindar o esquema, os investigados adotaram codinomes em planilhas de propina, numa ironia notável. Eles se autodenominavam “heróis” enquanto lesavam milhões de beneficiários.
O ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, era o “Italiano”, e recebia uma “mesada” de R$ 250 mil do esquema, valor que aumentou após sua ascensão ao cargo. Outros codinomes incluíam “Herói V” ou “Amigo V” para o ex-procurador Virgílio Oliveira Filho, que embolsou R$ 6,57 milhões, e “Herói E” para o deputado federal Euclydes Pettersen, o mais bem pago da lista, com R$ 14,7 milhões recebidos.
Conversão e Condecoração: Lado B da elite do crime
A vida dos envolvidos é marcada por contrastes e fatos que beiram o inusitado, destacando a distância entre a imagem pública e a realidade das acusações.
A Ironicidade da Honraria
Um dos fatos mais chocantes é a Medalha do Mérito Diplomático concedida a Alessandro Stefanutto em fevereiro de 2025. A honraria, que deveria celebrar serviços notáveis, foi recebida apenas alguns meses antes de ele ser alvo de um mandado de prisão preventiva na Operação Sem Desconto. O episódio sublinha a capacidade dos acusados de manterem uma fachada de respeitabilidade enquanto, nos bastidores, o esquema de corrupção prosperava.
A Mudança de Nome do Ex-Ministro
Outro detalhe que chamou a atenção foi a trajetória de José Carlos Oliveira, ex-ministro do Trabalho e Previdência no governo Bolsonaro e apontado pela PF como o “pilar institucional” que permitiu a expansão do esquema. Após deixar o governo, Oliveira se converteu ao islamismo e mudou legalmente seu nome para Ahmed Mohamad Oliveira. A mudança, que ocorreu no período em que as investigações se aprofundavam, é um dos fatos mais peculiares do caso.
A Economia Paralela e as Conexões Familiares
O volume de dinheiro desviado e a forma como era movimentado revelam a sofisticação da organização criminosa.
Cifras Milionárias e Malas para Dubai
A Conafer, entidade central no esquema, faturou mais de R$ 708 milhões com os descontos ilegais, dos quais R$ 640 milhões foram desviados. Além das transferências bancárias, as investigações apontaram a movimentação de grandes quantias em espécie. Em um episódio que ilustra a audácia do grupo, a presidente de uma associação investigada despachou 31 malas em um voo para Dubai, o que a PF suspeita ser o transporte de valores ou documentos.
Negócio de Família
O esquema de corrupção não se limitava a indivíduos, mas envolvia núcleos familiares inteiros, atuando em diferentes frentes:
•Irmãos no Comando: O presidente da Conafer, Carlos Lopes, e seu irmão, Tiago Lopes, são apontados como os líderes do esquema, com Tiago tendo acesso privilegiado ao sistema da Dataprev para inserir os descontos fraudulentos.
•Esposa e Empresas de Fachada: O ex-procurador Virgílio Oliveira Filho (“Herói V”) utilizou empresas de fachada para receber sua propina. Sua esposa, a médica endocrinologista Thaísa Hoffmann Jonasson, viu empresas ligadas a ela receberem R$ 7,5 milhões em pagamentos, sugerindo uma rota de lavagem de dinheiro.
•Envolvimento no Sindnapi: No caso de outra entidade investigada, o Sindnapi, a assessora jurídica Tonia Galleti e seus familiares (marido, mãe, irmã e cunhado) teriam recebido cerca de R$ 20 milhões, alegando serem pagamentos por serviços prestados.
•Pai e Filho: Enquanto o pai, o ex-diretor de benefícios do INSS, André Fidelis, era preso pela Polícia Federal, o filho, o advogado Éric Fidelis, prestava depoimento à CPI Mista do INSS. E, protegido por um habeas corpus, não respondeu muita coisa. Nem sobre as atividades do pai, nem sobre a movimentação milionária em sua conta, muito menos sobre as empresas investigadas.
Mesmo com o risco de sair da CPI preso, como alguns senadores chegaram a alertar.
Nomes da Operação, Apelidos e Codinomes
| Envolvido | Cargo/Função | Apelido/Codinome na Planilha | Curiosidade |
| Alessandro Stefanutto | Ex-Presidente do INSS (Jun/2023 a Abr/2025) | “O Italiano” | Recebia uma “mesada” de R$ 250 mil do esquema, valor que aumentou após assumir a presidência do INSS. |
| Virgílio Oliveira Filho | Ex-Procurador do INSS | “Herói V” | Esposo da médica endocrinologista Thaísa Hoffmann Jonasson, cujas empresas receberam pagamentos de empresas ligadas ao esquema. |
| André Fidelis | Ex-Diretor de Benefícios do INSS | “Herói A” | Seu filho, Eric Fidelis, foi ouvido na CPMI do INSS. |
| Euclydes Pettersen | Deputado Federal (à época) | “Herói E” | Teria recebido R$ 14,7 milhões do esquema por diferentes canais de pagamento. |
| José Carlos Oliveira | Ex-Ministro do Trabalho e Previdência (Governo Bolsonaro) | “São Paulo” ou “Yasser” | Apontado como “pilar institucional” do esquema, mudou seu nome para Ahmed Mohamad Oliveira após se converter ao islamismo, logo após deixar o governo Bolsonaro. |
| Não identificado | Antônio Carlos Camilo Antunes | “Careca do INSS” | Um dos alvos da operação, já estava preso em outra unidade prisional . |
A Operação Sem Desconto expõe, assim, não apenas um gigantesco esquema de corrupção que lesou milhões de aposentados, mas também a face humana, e por vezes bizarra, dos envolvidos, que transitavam entre a vida pública de honrarias e a clandestinidade de codinomes e desvios milionários.
Fonte: veja.abril.com.br / Redação: Eraldo Costa / Imagem: Divulgação














