A apreensão do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, passou a integrar uma investigação que cita o nome do ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e abriu novas frentes de apuração
A Polícia Federal protocolou no STF, em 9 de fevereiro de 2026, pedido de suspeição do ministro Dias Toffoli após encontrar menções ao nome do magistrado no celular de Daniel Vorcaro, banqueiro investigado no caso Master. O pedido tramita sob análise do presidente Edson Fachin.
O endereço que incomoda
Uma casa de 130 metros quadrados no bairro Jardim Universitário, em Marília, interior de São Paulo, tornou-se o epicentro de uma crise no Supremo Tribunal Federal.
O imóvel pertence a José Eugênio Dias Toffoli, irmão do ministro Dias Toffoli. Rachaduras tomam a fachada. O piso da garagem e da calçada apresenta desgaste visível. O acabamento, incompleto, revela tijolos à mostra em alguns trechos.
É ali que a família reside. É também o endereço oficial da Maridt Participações S.A. , empresa da qual Toffoli é sócio e seus dois irmãos, administradores.
A contradição salta aos olhos: a mesma empresa que tem sede numa casa sem reboco negociava cotas milionárias em um resort de luxo no Paraná com diárias a partir de R$ 1.200.
O resort, o fundo e as ligações com o PCC
Em setembro de 2021, a Maridt Participações vendeu parte de suas cotas no resort Tayayá para o fundo Arleen, administrado pela Reag Investimentos.
O valor da transação chegou a R$ 618 mil referentes à Tayayá Administração, acrescidos de R$ 2,54 milhões pela venda de participação na DGEP, outra empresa do grupo .
Hoje, a Reag Investimentos é investigada em duas frentes:
- Operação Carbono Oculto: apura suspeitas de lavagem de dinheiro para o PCC por meio de distribuidoras de combustíveis .
- Caso Master: investiga desvio de mais de R$ 40 bilhões pelo Banco Master do O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) a entidade privada, sem fins lucrativos, protege correntistas e investidores caso instituições financeiras associadas sofram intervenção ou liquidação. Ele garante até R$ 250 mil por CNPJ e CPF e R$
1 milhão a cada 4 anos) em produtos como poupança, CDBs, LCIs, LCAs e depósitos à vista. Um dos diretores e controlador do FGC, era Daniel Vorcaro, que teve o celular apreendido — e nele, mensagens que mencionam Dias Toffoli .
Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e cotista dos fundos Leal e Arleen, teve a prisão temporária decretada pelo próprio Toffoli em janeiro de 2026 .
O ministro Toffoli que investiga o caso, portanto, decretou a prisão do cunhado do dono do banco cujo celular citava seu nome — ao mesmo tempo em que a empresa da qual é sócio negociava com fundo gerido pela investigada Reag.
“Não somos milionários”, diz cunhada
Em levantamento da imprensa no endereço onde supostamente funcionava a sede do resort, foi contatada a cunhada do ministro, casada com José Eugênio, que rebateu as suspeitas que recaem sobre a família.
Segundo ela, o imóvel foi financiado ao longo de 25 anos e os irmãos “não são milionários”. A declaração, porém, não explica como a empresa familiar adquiriu e manteve participação societária em um empreendimento de alto padrão por quase quatro anos.
Os irmãos José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli não concederam entrevistas. O padre José Carlos, também administrador da Maridt, permanece em silêncio desde a revelação dos negócios.
O que Toffoli diz
Pela primeira vez, o ministro admitiu publicamente ter recebido recursos da Maridt Participações . Em conversas com interlocutores, Toffoli afirmou:
“Sou sócio da empresa há vários anos. Todos os valores recebidos foram declarados à Receita Federal. Não há qualquer ilicitude.”
Sua assessoria reforça que o ministro não tem relação pessoal com Daniel Vorcaro ou Fabiano Zettel e que o pedido de suspeição da PF carece de legitimidade, uma vez que a corporação não é parte no processo .
O pedido da PF e o futuro da investigação
A Polícia Federal discorda. Em petição protocolada no último dia 9 de fevereiro, a corporação requer:
- A declaração de suspeição do ministro Dias Toffoli.
- A remessa dos autos ao presidente do STF, Edson Fachin, para redistribuição.
- A anulação de todas as decisões assinadas por Toffoli no caso Master, caso o pedido seja acatado.
História M contada
É um caso de documentos públicos, contratos assinados, transferências bancárias rastreáveis, menções em celulares apreendidos, viagens de helicóptero, prisões decretadas, fundos liquidados, bilhões desviados.
A Polícia Federal encontrou elementos suficientes para pedir a suspeição de um ministro do Supremo Tribunal Federal — fato raro na história republicana.
O presidente do STF notificou Toffoli para se manifestar. Aguarda-se a resposta.
Enquanto isso, a casa de Marília permanece sem acabamento. O resort Tayayá continua vendendo diárias de R$ 1.200. Os irmãos do ministro seguem em silêncio.
E o dinheiro dos R$ 17 bilhões desviados do Banco Master — até agora — não apareceu.
Texto e Concepção de Imagem: Eraldo Costa | Imagem: IA / Qwen














