Termo “Sicários” significa “sanguinário” ou “assassino de aluguel”.
Investigações da Polícia Federal, no âmbito da terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta semana, lançam luz sobre o modus operandi do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Documentos obtidos pelo STF e reports da imprensa detalham a existência de “A Turma”, um grupo de ação paralela coordenado por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, também conhecido como Felipe Mourão e apelidado de “Sicário” — termo que significa “sanguinário” ou “assassino de aluguel”.
Segundo a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), Mourão exercia papel central na coordenação operacional desse grupo informal. Eles atuavam na coleta de informações e monitoramento de pessoas consideradas adversárias, incluindo autoridades públicas, jornalistas e ex-funcionários.
O orçamento do crime: R$ 1 milhão por mês
A estrutura de espionagem e intimidação mantida por Vorcaro não era amadora. De acordo com as investigações, o grupo conhecido como “A Turma” contava com um orçamento mensal de R$ 1 milhão para custear suas atividades ilícitas .
- Quem Pagava: Os recursos eram repassados por Fabiano Zettel, cunhado e braço direito de Vorcaro, frequentemente descrito como o “contador informal” do grupo .
- Quem Recebia: O dinheiro era distribuído por Mourão aos demais integrantes da equipe, que incluía até mesmo um policial federal aposentado, identificado como Marilson Roseno da Silva .
O alcance da espionagem: da PF ao FBI
A capacidade técnica do grupo ia muito além de simples vigilância. “A Turma” foi capaz de invadir sistemas sigilosos para obter informações privilegiadas e neutralizar ameaças aos negócios de Vorcaro .
“Nesse contexto, o investigado organizava e executava diligências destinadas à identificação, localização e acompanhamento de pessoas que mantinham relação com investigações ou com críticas às atividades do grupo econômico ligado ao Banco Master”, destacou o ministro André Mendonça em sua decisão .
Segundo a PF, Mourão obtinha acesso indevido aos sistemas utilizando credenciais funcionais de servidores públicos. As invasões atingiram órgãos nacionais e internacionais de alto escalão :
- Polícia Federal (PF)
- Ministério Público Federal (MPF)
- Federal Bureau of Investigation (FBI)
- Interpol
A barbárie nos diálogos: “Moer”, “Dar Sacode” e simular assaltos
As mensagens extraídas dos celulares dos investigados, e que embasaram os novos pedidos de prisão, revelam a face mais brutal da organização. Vorcaro não apenas encomendava vigilância, mas também violência explícita .
- Ameaça a Funcionária: Em uma conversa, Vorcaro ordena ações contra uma empregada doméstica que o estaria ameaçando: “Tem que moer essa vagabunda”. Ao ser questionado por Mourão sobre o que fazer, o banqueiro responde: “Puxa endereço tudo” .
- Intimidação a Desafetos: Em outro diálogo, Vorcaro sugere intimidar um chef de cozinha ligado a um ex-funcionário: “O bom de dar sacode no chef de cozinha primeiro. O outro já vai assustar” .
O ataque planejado à imprensa: O caso Lauro Jardim
O ponto mais crítico da investigação, no entanto, é a tentativa explícita de cercear a liberdade de imprensa. O jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, foi alvo de Vorcaro, que planejou uma ação violenta para impedir a publicação de notícias contrárias aos seus interesses .
Os diálogos mostram a frieza do plano:
- Vorcaro: “Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele.”
- Vorcaro: “Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto.”
- Mourão: “Pode? Vou olhar isso.”
- Vorcaro: “Sim.”
Na decisão, Mendonça enfatiza a gravidade: “A partir de todos esses diálogos verifica-se a presença de fortes indícios de que Vorcaro determinou a Mourão que forjasse um assalto, ou simulasse cenário semelhante, para prejudicar violentamente o jornalista (…) e, a partir do episódio, calar a voz da imprensa” .
A conexão Política: O Resort Tayayá e o STF
Paralelamente à estrutura de terror, a investigação também aprofunda os laços do grupo com o alto escalão político e judiciário, expondo uma engenharia financeira suspeita envolvendo o resort Tayayá, no Paraná .
- O Esquema Societário: A Polícia Federal detalha o fluxo de R$ 35 milhões através de fundos controlados por Fabiano Zettel (fundos Leal e Arleen) destinados ao resort, do qual a Maridt S.A. , empresa da família do ministro Dias Toffoli, era sócia .
- As Cobranças: Mensagens mostram Vorcaro pressionando Zettel para cumprir os aportes no Tayayá: “Você não resolveu o aporte do fundo Tayayá? Estou em situação ruim” .
- A Defesa: Toffoli admitiu a sociedade familiar no empreendimento, mas negou ter recebido dinheiro de Vorcaro ou Zettel, afirmando que a venda das cotas ocorreu dentro da legalidade e que desconhecia o gestor dos fundos envolvidos . Após as revelações, a relatoria do caso foi deslocada para o ministro André Mendonça .
As ramificações do poder
O caso Vorcaro expõe um modus operandi que transcende o crime financeiro. Os tentáculos da organização atingiam pontos nevrálgicos da república:
- Neutralização de Adversários: Através de “A Turma”, o grupo buscava eliminar resistências na política, em órgãos públicos e no jornalismo.
- Lavagem de Dinheiro: Utilizava-se de empresas fantasmas e bancos de fachada (como os fundos de investimento Reag) para ocultar a origem do dinheiro, alimentando negócios como o resort Tayayá .
- Corrupção Sistêmica: A investigação sugere a compra de influência para fraudar o sistema financeiro, atacar o Banco Central, e possivelmente influenciar a compra de sentenças e leis, embora esses pontos ainda estejam sob apuração .
Situação atual
Nesta quarta-feira (4), Daniel Vorcaro teve sua prisão preventiva decretada e foi levado para a Superintendência da PF em São Paulo. A Justiça também decretou a prisão de Fabiano Zettel (foragido), Luiz Phillipi Mourão e do policial federal aposentado Marilson Roseno. O bloqueio de bens dos investigados já soma R$ 22 bilhões .
A defesa de Vorcaro nega as acusações. Em nota, afirmou que o banqueiro “confia que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta” .
Quem é quem no escândalo
- Daniel Vorcaro: Dono do Banco Master, apontado como chefe da organização criminosa. Preso.
- Fabiano Zettel: Cunhado e “contador” de Vorcaro, responsável pelos pagamentos ilegais. Foragido.
- Luiz Phillipi Mourão (Sicário): Chefe do grupo de espionagem “A Turma”. Alvo de prisão.
- Marilson Roseno: Policial federal aposentado, integrante de “A Turma”. Alvo de prisão.
- A Turma: Grupo de WhatsApp usado para coordenar vigilância, espionagem e ataques a inimigos do Banco Master.
- Dias Toffoli: Ministro do STF. Sua empresa familiar negociou participação no resort Tayayá com fundos ligados a Vorcaro.
Fonte: ICL Notícias | Texto e Concepção de Imagem: Eraldo Costa | 📷: IA | Qwen














