O olhar atento de um socorrista experiente foi o primeiro passo para desmontar a versão apresentada pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto sobre a morte da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos. O caso ocorreu em um apartamento no bairro do Brás, região central de São Paulo.
Quando a equipe de resgate chegou ao local na manhã de 18 de fevereiro, o militar afirmou que a esposa havia tirado a própria vida após uma discussão. Segundo ele, estava no banho quando ouviu o disparo.
No entanto, um socorrista com 15 anos de experiência notou inconsistências imediatas. O tenente-coronel estava com o corpo seco e não havia sinais de água pelo apartamento, o que contradizia a versão de que teria acabado de sair do chuveiro. Outro detalhe chamou ainda mais atenção: a arma estava perfeitamente posicionada na mão da vítima, algo incomum em casos de suicídio.
Fotografias que levantaram suspeitas
Diante da cena, o socorrista Rodrigo Almeida Rodrigues fotografou a posição da arma na mão da policial militar Gisele Alves Santana. O registro acabou contestando a versão inicial de suicídio e levantou possíveis inconsistências no caso.
Desconfiado da situação, o profissional utilizou o celular para registrar imagens do local. Chamou sua atenção a forma como a arma estava “bem encaixada” na mão da vítima, algo que considerou incomum. Por isso, decidiu fotografar o cenário para preservar possíveis evidências.
As imagens foram entregues às autoridades e passaram a integrar o conjunto de provas analisado pela investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo.
Peritos ouvidos no inquérito consideraram o detalhe incomum, já que em episódios de suicídio é frequente que a arma caia da mão após o disparo.
Exumação mudou o rumo do caso
Com as suspeitas levantadas pela família da vítima, a Justiça autorizou a exumação do corpo. O procedimento foi realizado em 6 de março.
O novo laudo necroscópico revelou lesões na face e na região cervical compatíveis com pressão digital e marcas de unhas no pescoço. Segundo os peritos, os indícios apontam que Gisele pode ter sido agredida e desmaiado antes do disparo.
A análise da trajetória do tiro também levantou dúvidas sobre a hipótese inicial de suicídio. O disparo teria sido realizado de baixo para cima e com o cano da arma encostado na cabeça.
Contradições reforçaram investigação
Outros elementos também foram considerados relevantes pela investigação. Uma vizinha relatou ter ouvido o disparo às 7h28, mas a ligação do militar pedindo socorro ocorreu apenas às 7h57.
Exames residuográficos não identificaram vestígios de pólvora nas mãos da vítima nem nas do tenente-coronel. Mensagens extraídas do celular do casal também indicaram um relacionamento marcado por conflitos e controle.
Além disso, policiais militares teriam ido ao imóvel horas depois para limpar o apartamento, fato que passou a ser investigado como possível fraude processual.
Indiciamento e prisão
O inquérito foi concluído pela Polícia Civil de São Paulo, que indiciou o tenente-coronel por feminicídio e fraude processual. Ao todo, cerca de 24 laudos periciais foram produzidos pela Superintendência da Polícia Técnico-Científica de São Paulo.
Nesta quarta-feira (18), o militar foi preso pela Polícia Militar do Estado de São Paulo em São José dos Campos, após decisão da Justiça Militar.
O caso ganhou novo rumo graças à atenção de um socorrista que percebeu detalhes ignorados na versão inicial e ajudou a revelar o que a investigação passou a tratar como feminicídio.
Fonte: UOL | Texto e Concepção de Imagem: Eraldo Costa | 📷: Redes Sociais/Canva














