Maior polo de comércio popular da América Latina enfrenta dificuldade histórica para contratar; flexibilidade de horários em plataformas digitais muda perfil do trabalhador
Enquanto cerca de 5 mil lojas do principal polo comercial popular da América Latina acumulam aproximadamente 11 mil vagas abertas, milhares de trabalhadores preferem atuar em plataformas como iFood, Uber, 99 e Rappi. O cenário revela uma transformação no mercado de trabalho urbano e na relação das novas gerações com emprego, rotina e qualidade de vida.
Segundo a Associação dos Lojistas do Brás (Alobrás), o déficit de funcionários atinge funções consideradas essenciais para o funcionamento das lojas. As principais vagas abertas são para vendedor, operador de caixa, auxiliar de estoque, repositor, cortador e overloquista.
A média salarial para parte dessas funções gira entre R$ 1,6 mil e R$ 2 mil, normalmente acompanhada da tradicional escala 6×1 — seis dias trabalhados para apenas um de descanso. Para muitos jovens, principalmente entre 18 e 30 anos, o modelo é visto como pouco atrativo diante da flexibilidade oferecida pelos aplicativos.
“Nossa escala é um pouco complicada. Muitos jovens recuam quando veem a carga horária de 44 horas semanais e trabalho aos sábados”, afirmou Lauro Pimenta, vice-presidente da Alobrás.
Flexibilidade pesa mais que carteira assinada
Trabalhadores de aplicativos relatam que a principal vantagem não é apenas a renda, mas a autonomia sobre a própria rotina.
“Posso definir meus horários, descansar quando preciso e até conciliar com outras atividades”, relatou um entregador de aplicativo ouvido pela reportagem.
Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que o Brasil alcançou cerca de 1,7 milhão de trabalhadores em plataformas digitais em 2024, crescimento de 25,4% em relação a 2022.
Segundo o levantamento:
- 58,3% atuam em aplicativos de transporte;
- 29,3% trabalham com entregas;
- 7,8% prestam serviços gerais.
O rendimento médio mensal dos trabalhadores de plataformas digitais foi estimado em R$ 2.996, valor ligeiramente superior à média de outros trabalhadores brasileiros. Em contrapartida, a informalidade permanece elevada e os profissionais têm menos acesso à proteção previdenciária e benefícios trabalhistas.
Debate sobre escala 6×1 ganha força no Congresso
A crise de mão de obra no comércio também ocorre em meio ao avanço das discussões sobre o fim da escala 6×1 no Congresso Nacional.
Propostas em tramitação na Câmara e no Senado discutem redução da jornada semanal e ampliação dos períodos de descanso, tema que ganhou força após críticas de trabalhadores e especialistas em saúde ocupacional.
Economistas avaliam que o crescimento da chamada “uberização” do trabalho não está ligado apenas à renda, mas também à busca por autonomia e reorganização do tempo pessoal. Já psicólogos do trabalho apontam que jornadas extensas e pouca flexibilidade estão entre os fatores associados ao aumento do desgaste emocional e da rotatividade no varejo.
Comércio tenta reagir
Diante do cenário, lojistas do Brás passaram a buscar apoio da Prefeitura de São Paulo e do Centro de Apoio ao Trabalho e Empreendedorismo (Cate) para ampliar ações de empregabilidade e aproximar candidatos das vagas disponíveis.
Nos bastidores do setor, cresce a percepção de que apenas abrir novas vagas não será suficiente para resolver o problema. Sem mudanças em jornada, remuneração e condições de trabalho, o apagão de mão de obra tende a continuar nos principais polos comerciais da capital paulista.
Fonte: 📸 Reportagem produzida com base em entrevistas, dados oficiais e visitas ao polo comercial do Brás | Concepção do Texto: Eraldo Costa














