Sistema proporcional faz com que a eleição para deputado dependa também do desempenho dos partidos e federações; para senador, vence quem tiver mais votos
Por Eraldo Costa | Guarulhos em Foco
Com 948.410 eleitores aptos, Guarulhos chega às Eleições 2026 como o segundo maior colégio eleitoral do Estado de São Paulo, atrás apenas da capital. O tamanho do eleitorado aumenta o peso político da cidade, mas existe uma dúvida importante: quantos deputados ligados a Guarulhos podem ser eleitos?
A resposta não está simplesmente na quantidade de votos que cada candidato receberá dentro do município.
Isso acontece porque as eleições para deputado federal e deputado estadual seguem o sistema proporcional. Nesse modelo, os votos dados aos candidatos e os votos de legenda são somados para definir quantas cadeiras cada partido ou federação terá direito a ocupar. Só depois entram em cena os candidatos mais votados dentro de cada legenda.
Já para o Senado Federal, a regra é diferente. A eleição é majoritária e, em 2026, São Paulo escolherá dois senadores. Os dois candidatos que obtiverem mais votos válidos no Estado serão eleitos, observadas as regras da Justiça Eleitoral.
Guarulhos não tem cadeiras próprias na Câmara dos Deputados ou na Alesp
Um dos principais pontos que precisam ser compreendidos é que não existe uma quantidade de cadeiras de deputado reservada para Guarulhos.
A circunscrição eleitoral para deputado federal e deputado estadual é o Estado de São Paulo, e não o município. Isso significa que candidatos de Guarulhos disputam as vagas com candidaturas de todo o Estado.
Assim, a votação obtida em Guarulhos é incorporada ao resultado estadual de cada candidatura e de sua legenda.
Um candidato pode ter uma votação expressiva em Guarulhos, mas sua eleição dependerá também do desempenho de seu partido ou federação em todo o Estado.
É justamente aí que entram os chamados quocientes eleitorais e partidários.
Por que o mais votado pode não ser eleito?
Nas eleições proporcionais, o eleitor não está apenas escolhendo uma pessoa. Seu voto também participa da composição eleitoral da legenda.
O Tribunal Superior Eleitoral explica que os votos nominais e os votos de legenda são somados para determinar a quantidade de cadeiras conquistadas por cada partido ou federação.
O primeiro cálculo é o quociente eleitoral (QE).
De forma simplificada:
QE = votos válidos ÷ número de vagas
Depois é calculado o quociente partidário (QP), que considera a votação obtida pelo partido ou federação em relação ao quociente eleitoral.
A partir daí, são distribuídas as cadeiras.
Por isso, não basta olhar apenas para a lista geral dos candidatos mais votados.
É possível que um candidato tenha mais votos individuais do que outro e, ainda assim, não ocupe uma cadeira, dependendo do número de vagas conquistadas por sua legenda e das regras aplicáveis à distribuição das vagas.
O TSE resume a lógica dizendo que, no sistema proporcional, os votos ajudam a eleger candidatos e também fortalecem o partido ou federação ao qual eles pertencem.
Um exemplo simples
Imagine uma eleição hipotética para deputado com 10 vagas.
Se um partido conseguir votos suficientes para conquistar três cadeiras, essas três vagas serão preenchidas pelos candidatos daquela legenda que obtiverem as maiores votações nominais, desde que atendidos os requisitos previstos na legislação.
Outro partido pode conquistar apenas uma cadeira.
Nesse cenário, não adianta simplesmente juntar todos os candidatos e ordenar do primeiro ao décimo pelo número de votos.
A ordem precisa ser analisada dentro da distribuição das cadeiras entre as legendas.
É essa característica que diferencia uma eleição proporcional de uma eleição majoritária.
E as chamadas sobras eleitorais?
A distribuição não termina necessariamente depois do primeiro cálculo.
Podem existir vagas que não sejam preenchidas na primeira etapa. Essas são as chamadas sobras eleitorais, que seguem regras específicas para a distribuição das cadeiras remanescentes.
Para 2026, o TSE estabelece critérios relacionados ao desempenho dos partidos ou federações e à votação individual das candidaturas. Entre as regras apresentadas pelo Tribunal está a exigência de que partidos ou federações atinjam determinados percentuais do quociente eleitoral e que candidatos cumpram a votação nominal mínima prevista.
Isso acrescenta outra camada ao cálculo.
Por isso, uma fotografia da votação individual dos candidatos, isoladamente, não é suficiente para afirmar quantos deputados ligados a Guarulhos serão eleitos.
E para senador? A regra muda completamente
Aqui está uma diferença importante para o eleitor.
Senador é eleito pelo sistema majoritário.
Em 2026, cada eleitor paulista terá dois votos para o Senado, porque São Paulo escolherá duas cadeiras.
Nesse caso, não existe quociente eleitoral ou partidário para determinar quem ocupa a vaga.
Os dois candidatos mais votados no Estado serão eleitos, conforme as regras da eleição majoritária.
Portanto:
| Cargo | Sistema | Como as vagas são definidas |
|---|---|---|
| Deputado federal | Proporcional | Desempenho de partidos/federações + votação dos candidatos |
| Deputado estadual | Proporcional | Desempenho de partidos/federações + votação dos candidatos |
| Senador | Majoritário | Os dois candidatos mais votados em São Paulo |
| Governador | Majoritário | Maioria absoluta ou segundo turno, quando necessário |
| Presidente | Majoritário | Maioria absoluta ou segundo turno |
O próprio TSE classifica deputados como cargos do sistema proporcional e senador como cargo do sistema majoritário.
Então os votos de Guarulhos não são suficientes para saber quem será eleito?
Não isoladamente.
A cidade tem um eleitorado expressivo e sua votação pode ter peso relevante para candidaturas que possuem base política no município. Mas a eleição para deputado acontece em âmbito estadual.
Isso significa que o eleitor de Guarulhos pode contribuir para a votação de um candidato, mas a transformação desses votos em uma cadeira depende do resultado obtido pela candidatura e pela respectiva legenda em todo o Estado.
Por isso, uma pergunta como “quantos deputados Guarulhos vai eleger?” não possui uma resposta antecipada simplesmente contando os votos da cidade.
O que poderá ser determinado após a apuração será quais candidatos ligados a Guarulhos conseguiram vagas nas disputas estaduais para deputado federal e estadual.
Quando o candidato sabe que está eleito?
Essa é uma das curiosidades que mais aparecem na noite da eleição.
A votação termina oficialmente às 17h, pelo horário de Brasília, no dia 4 de outubro. Quem estiver na fila nesse horário ainda poderá votar. Depois do encerramento da seção, os dados da urna são gravados, assinados digitalmente e transmitidos para os sistemas da Justiça Eleitoral.
A divulgação dos resultados de 2026 começará a partir das 17h, e os números serão atualizados conforme os boletins de urna forem recebidos e processados. O eleitor poderá acompanhar a evolução da totalização em tempo real pelo sistema oficial do TSE.
Mas existe um horário exato para saber quem foi eleito?
Não.
Não há um horário previamente estabelecido para que todos os candidatos saibam oficialmente que foram eleitos.
No caso dos candidatos a senador, a situação tende a ficar matematicamente clara à medida que a maioria das urnas do Estado é totalizada, porque basta comparar as votações dos candidatos.
Para deputados, a conta é mais complexa. É necessário considerar a totalização estadual, o desempenho dos partidos e federações, o cálculo das cadeiras e as regras de distribuição das vagas.
Assim, um candidato pode ser considerado matematicamente eleito antes de 100% das urnas terem sido totalizadas, quando a diferença em relação aos concorrentes e as cadeiras disponíveis tornam impossível uma mudança no resultado.
Mas isso é diferente da proclamação oficial do resultado.
A apuração pode avançar rapidamente
O processo de transmissão é feito à medida que as urnas encerram a votação e os boletins são enviados para processamento.
O TSE informa que os resultados de 2026 poderão ser acompanhados em tempo real e que o sistema mostrará o avanço da totalização por Estado e município.
Em São Paulo, a experiência de 2022 mostra como a transmissão pode avançar rapidamente: naquele primeiro turno, 91,11% das urnas paulistas haviam encerrado a votação até 17h30, embora a conclusão da totalização estadual seja uma etapa posterior.
Na eleição de 2022, por exemplo, o TSE já divulgava às 20h36 um cenário para o segundo turno do governo paulista com 94,73% das urnas apuradas.
Esses horários, porém, não devem ser tratados como previsão para 2026. A velocidade depende do processamento e transmissão dos boletins e da própria evolução da totalização.
Resultado na tela não significa necessariamente fim de todas as questões jurídicas
Existe ainda outra diferença importante.
A Justiça Eleitoral pode divulgar os resultados e proclamar os eleitos, mas situações relacionadas ao registro de candidaturas ou decisões judiciais podem provocar alterações posteriores em determinados casos.
O TSE explica que, dependendo da situação do registro da candidatura, os votos podem ser considerados na totalização e posteriormente sofrer alteração caso haja decisão judicial que modifique a situação do candidato.
Há precedente concreto em São Paulo.
Em 2024, o TRE-SP realizou uma nova totalização das eleições de 2022 para deputado estadual depois da cassação de registros de candidaturas por fraude à cota de gênero. A alteração modificou a relação de eleitos e suplentes: Camila Godoi passou à condição de eleita, enquanto Simão Pedro passou a primeiro suplente.
Ou seja, o resultado divulgado na noite da eleição é fundamental, mas o processo eleitoral possui etapas jurídicas posteriores que podem, em situações específicas, alterar uma totalização.
O que o eleitor de Guarulhos precisa observar
Para avaliar as possibilidades de eleição de candidatos ligados à cidade, não basta perguntar:
“Quantos votos ele recebeu em Guarulhos?”
É necessário observar pelo menos quatro informações:
1. Votação estadual do candidato
Quantos votos ele recebeu em todo o Estado.
2. Desempenho da legenda
Quantos votos o partido ou federação conseguiu somando votos nominais e de legenda.
3. Número de cadeiras conquistadas pela legenda
É essa etapa que transforma a votação partidária em vagas.
4. Posição do candidato dentro da própria legenda
Depois de definidas as cadeiras, entram os candidatos que atendem aos requisitos legais e apresentam as maiores votações dentro daquela legenda ou federação













