Documentos mostram mudança de entendimento técnico sobre origem do dinheiro; ex-diretores que mudaram de posição são alvo de investigações por suspeita de corrupção
O Banco Central tornou públicos nesta sexta-feira (24) os votos individuais que embasaram a controversa aprovação da compra do Banco Máxima — que se tornaria o Banco Master — pelo empresário Daniel Vorcaro.
Documentos obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) revelam que o Banco Central, sob a gestão de Roberto Campos Neto, reverteu um veto unânime e aprovou, em oito meses, a compra do Banco Máxima por Daniel Vorcaro em 2019. A mudança de posicionamento da diretoria ocorreu apesar de alertas internos sobre a reputação de Vorcaro e a origem dos recursos para a transação.
Os documentos, da LAI, expõem uma virada de 180 graus na postura da autarquia entre fevereiro e outubro de 2019, período de transição entre as presidências de Ilan Goldfajn e Roberto Campos Neto.
A divulgação ocorre em meio ao maior escândalo financeiro recente do país, com um rombo estimado em R$ 52 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e a prisão de Vorcaro, além de investigações que apontam para possíveis irregularidades na conduta de ex-dirigentes do próprio BC.
Onde e Quando: A cronologia da reversão
A trajetória da aprovação pode ser dividida em dois momentos distintos, separados por apenas oito meses, mas sob comandos diferentes:
- O Veto (Fevereiro de 2019): Sob a gestão de Ilan Goldfajn, a diretoria colegiada rejeitou, por unanimidade, o pedido de Vorcaro para assumir o controle do Banco Máxima. O voto relator, assinado pelo então diretor de Organização do Sistema Financeiro, Sidnei Corrêa Marques, foi categórico: não havia comprovação clara da origem dos recursos. Marques apontou indícios de “circularização” de capital — ou seja, o uso do próprio dinheiro do banco ou de empresas ligadas para financiar a compra — e inconsistências em avaliações imobiliárias apresentadas por Vorcaro x.comwww1.folha.uol.com.br.
- A Aprovação (Outubro de 2019): Já na gestão de Roberto Campos Neto, indicado pelo governo Jair Bolsonaro, o mesmo processo foi aprovado, também por unanimidade (8 votos a 0). O novo diretor de Organização, João Manoel Pinho de Mello, acolheu novas documentações e projeções de fluxo de caixa, considerando que Vorcaro havia sanado as dúvidas sobre sua capacidade econômica x.comwww.poder360.com.br.
Como: A “limpeza” documental e a pressão interna
Os votos divulgados revelam que a mudança não ocorreu por acaso. Entre o veto e a aprovação, Vorcaro e seus sócios realizaram o que fontes técnicas chamam de “limpeza” de sua vida pregressa e financeira:
- Retificação de Imposto de Renda: Vorcaro apresentou declarações retificadoras à Receita Federal e recolheu impostos atrasados, tentando blindar seu perfil fiscal.
- Novos Sócios e Estrutura: O grupo de controle foi enxutado. De uma proposta inicial com múltiplos investidores de perfil duvidoso, Vorcaro associou-se a Felipe Wallace Simonsen e Armando Miguel Gallo Neto, através da 133 Investimentos, apresentando balanços auditados da Viking Participações e cartas de grandes bancos (grupo S1) atestando disponibilidade de recursos líquidos www1.folha.uol.com.brvalor.globo.com.
- Pressão Política e Técnica: E-mails apreendidos pela Polícia Federal mostram que Vorcaro pressionou o então diretor de Fiscalização, Paulo Sérgio Neves de Souza, para acelerar a aprovação antes da saída de Sidnei Marques. “Precisamos resolver isso, precisamos de sua ajuda para que o Sidnei aprove agora, antes da sua saída”, escreveu Vorcaro em fevereiro de 2019 valor.globo.comwww1.folha.uol.com.br.
Quem mudou de lado: Os quatro votos decisivos
Um ponto crucial revelado pelo Poder360 é que quatro diretores que votaram contra em fevereiro mudaram seu posicionamento em outubro, dando o aval definitivo à operação. São eles:
- Paulo Sérgio Neves de Souza (Fiscalização): Alvo de operação da PF por suspeita de receber propina de Vorcaro, incluindo a venda simulada de um sítio em Minas Gerais.
- Maurício Moura (Relação Institucional).
- Carolina de Assis Barros (Administração).
- Otávio Ribeiro Damaso (Regulação).
Esses diretores, indicados originalmente pelos governos Temer e Dilma, foram reconduzidos ou mantidos na gestão Bolsonaro. A unanimidade na segunda votação contrasta com as divergências internas relatadas nos bastidores, onde técnicos alertavam para a reputação ilibada questionável de Vorcaro, conhecido na praça de Belo Horizonte como “picareta”
Conclusão: O custo da omissão regulatória
A liberação dos votos pelo BC atual, sob a presidência de Gabriel Galípolo, tenta transparecer transparência, mas acende o debate sobre a responsabilidade institucional. Galípolo afirmou à CPI do Crime Organizado que não há provas de irregularidades atribuíveis diretamente a Roberto Campos Neto, atribuindo a decisão a um cumprimento estrito dos requisitos formais à época
A Máxima de 2019
No entanto, a história do Banco Master ilustra uma falha sistêmica: a priorização de “soluções de mercado” para evitar liquidações bancárias — que onerariam o FGC — em detrimento de uma análise rigorosa de compliance e reputação. O prejuízo final ao sistema financeiro, hoje calculado em dezenas de bilhões de reais, sugere que o “custo” de aprovar Vorcaro foi infinitamente superior ao de liquidar o Banco Máxima em 2019.
Com a Justiça brasileira avançando nas investigações de corrupção e lavagem de dinheiro, os votos divulgados nesta sexta-feira servem agora como peças-chave para entender não apenas como um banqueiro investigado assumiu o controle de uma instituição financeira, mas como a máquina regulatória do país foi moldada para permitir essa exceção.
Fonte: valor.globo.com / poder360.com.br / x.com /www.brasil247.com | Texto e Concepção de Imagem: Eraldo Costa | 📷: Roberto Campos Neto | Vinicius Loures/Câmara dos Deputados














