Investigação aponta possível uso de fundos para ocultar perdas, inflar patrimônio e sustentar captação de recursos; Justiça autorizou bloqueio de R$ 670 milhões
A Operação Miragem, deflagrada pela Polícia Federal nesta semana, colocou o Banco Digimais no centro de uma das mais relevantes investigações financeiras dos últimos anos. A apuração mira suspeitas de gestão fraudulenta, manipulação contábil e utilização de fundos de investimento para ocultar perdas financeiras da instituição controlada por Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário do Grupo Record.
Por determinação da 6ª Vara Federal de São Paulo, foram autorizados bloqueios de até R$ 670,3 milhões em bens e ativos dos investigados, além da quebra de sigilos bancário e fiscal. A investigação corre sob sigilo.
O nome da operação faz referência à suposta criação de uma aparência artificial de solidez financeira por meio de estruturas que, segundo os investigadores, teriam mascarado a real situação econômica do banco.
Fundos sob suspeita
De acordo com a Polícia Federal, o Digimais teria utilizado uma complexa rede de fundos de investimento para elevar artificialmente seu patrimônio líquido e manter a capacidade de captar recursos junto ao mercado.
O foco principal está em cerca de R$ 4 bilhões aportados em fundos, dos quais aproximadamente R$ 3 bilhões não puderam ser adequadamente auditados devido à insuficiência de documentação apresentada aos auditores independentes.
Parte desses recursos teria sido direcionada para Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), utilizados para absorver carteiras de crédito com altos índices de inadimplência.
Segundo a investigação, o banco teria transferido créditos problemáticos para fundos dos quais continuava sendo cotista relevante. Na prática, os riscos econômicos permaneceriam vinculados ao mesmo grupo financeiro, ainda que formalmente retirados dos balanços da instituição.
Lucros questionados e créditos vencidos
As apurações também levantam dúvidas sobre os resultados financeiros divulgados pelo banco.
Embora o Digimais tenha reportado lucro de R$ 31 milhões em 2025, análises preliminares indicam que cerca de R$ 480 milhões em créditos vencidos teriam deixado de impactar diretamente os resultados apresentados ao mercado.
Caso as suspeitas sejam confirmadas, especialistas avaliam que a situação poderia representar uma distorção significativa da real condição financeira da instituição.
Exposição ao Banco Master amplia preocupações
A investigação ganhou novos contornos após a liquidação extrajudicial do Banco Master, determinada pelo Banco Central em novembro de 2025.
Segundo os investigadores, o Digimais possuía aproximadamente R$ 600 milhões de exposição a operações ligadas ao Master, ampliando os riscos de contágio entre instituições financeiras de médio porte.
Outro episódio relevante ocorreu em fevereiro deste ano, quando a gestora Yards Capital notificou o banco para recomprar uma carteira avaliada em R$ 462,2 milhões, alegando ausência de lastro suficiente nos ativos negociados. O Digimais contestou a cobrança.
Moody’s rebaixou classificação de risco
Em maio, a agência Moody’s Local Brasil rebaixou os ratings do Digimais e anunciou a interrupção do monitoramento da instituição.
A agência destacou preocupações relacionadas à elevada concentração de ativos em fundos de investimento alternativos e mencionou ressalvas de auditoria envolvendo aproximadamente R$ 3,1 bilhões em fundos, devido à limitação de informações disponíveis para avaliação.
Na ocasião, os títulos e valores mobiliários ligados a fundos representavam cerca de 42% dos ativos totais do banco, equivalentes a 5,4 vezes seu patrimônio líquido.
Fé, prosperidade e questionamentos
A investigação também reacendeu debates sobre a imagem pública do controlador do banco. Edir Macedo construiu ao longo de décadas uma das maiores organizações religiosas do país, frequentemente associada à chamada teologia da prosperidade.
Contudo, é importante destacar que as suspeitas investigadas dizem respeito à gestão financeira da instituição bancária e não possuem relação direta com a atividade religiosa da Igreja Universal. Até o momento, não há condenação definitiva relacionada aos fatos apurados, e os investigados têm direito à ampla defesa e ao contraditório.
O que está em jogo
Mais do que uma investigação sobre uma instituição específica, a Operação Miragem reacende o debate sobre transparência contábil, governança corporativa e fiscalização do sistema financeiro.
Especialistas apontam que o principal desafio será determinar se estruturas financeiras complexas foram utilizadas para esconder perdas, sustentar emissões de CDBs e transferir riscos para investidores e mecanismos de proteção coletiva, como o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Embora estimativas de mercado mencionem que um eventual processo de resolução bancária pudesse demandar aportes bilionários do FGC, não há, até o momento, qualquer decisão do Banco Central sobre insolvência ou liquidação do Digimais.
A instituição nega irregularidades e tem direito ao contraditório e à ampla defesa. As investigações seguem sob responsabilidade da Polícia Federal, com acompanhamento da Justiça Federal, Banco Central e Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Fonte: UOL / CNN Brasil | Concepção do Texto e Imagem: Eraldo Costa | 📷: Créditos Carlos Augusto / Jornal Grande Bahia JGB














