Operação no Alemão reacende debate sobre soberania e interferência dos EUA.
A recente operação no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, que deixou 121 mortos em 28 de novembro, reacendeu um debate sensível e estratégico: como o Brasil deve classificar facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC)? São organizações criminosas, crime organizado ou casos de narcoterrorismo?
A resposta vai muito além da semântica — ela define os limites da soberania nacional e a possibilidade de intervenções estrangeiras sob o pretexto de combate ao terror.
O Conceito em Disputa
O secretário nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubo, foi categórico:
“Não temos organizações terroristas aqui. Temos organizações criminosas que se infiltraram na sociedade”, afirmou.
De fato, a legislação brasileira restringe o conceito de terrorismo a atos motivados por ideologias políticas, religiosas ou étnicas contra o Estado. Assim, enquadrar facções em moldes de terrorismo seria uma mudança drástica de interpretação legal e diplomática.
Contudo, a visão dos Estados Unidos segue um caminho distinto. A Ordem Executiva 14157, assinada pelo ex-presidente Donald Trump em janeiro de 2025, passou a designar grupos do narcotráfico latino-americano como Organizações Terroristas Globais, abrindo brechas para intervenções militares e sanções econômicas.
Projetos de Lei: Existem projetos de lei em tramitação no Congresso (como o PL 2.175/2021 e o PL 3.283/2021) que buscam ampliar o conceito legal de terrorismo para incluir atos de organizações criminosas e milícias, o que mudaria a atribuição do combate a esses grupos, podendo envolver a Polícia Federal.
O governo brasileiro recusou a proposta norte-americana de reconhecer o PCC e o CV como grupos terroristas. Ainda assim, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), encaminhou um relatório à Casa Branca defendendo a classificação do Comando Vermelho como organização terrorista — um gesto que expõe fissuras internas e pressões externas.
Geopolítica e Interesses Ocultos
A pressa em redefinir essas facções como terroristas revela uma estratégia geopolítica maior. Sob o discurso de combate ao narcotráfico, governos alinhados a Trump em países como Peru, Equador e Argentina já facilitaram o ingresso de forças especiais norte-americanas em seus territórios.
Essa classificação permite que os EUA imponham sanções comerciais e restrições financeiras, como ocorreu com Venezuela e Colômbia. No contexto brasileiro, a operação no Alemão também serviu de combustível para campanhas digitais que associaram o Comando Vermelho à esquerda política e ao presidente Lula, criando uma narrativa conveniente para o discurso do “narcoterrorismo”.
O Efeito Inverso da Ajuda Americana
Embora os EUA se apresentem como líderes no combate ao crime internacional, as ações do governo Trump enfraqueceram mecanismos de controle financeiro usados para rastrear lavagem de dinheiro.
Ordens executivas como “Strengthening American Leadership in Digital Financial Technology” e “Fair Banking for All Americans” flexibilizaram regras de compliance bancário, facilitando transferências anônimas e fluxos ilícitos de capital — justamente o que sustenta as redes do narcotráfico.
Além disso, segundo levantamento da Polícia Militar do Rio de Janeiro, 60% dos fuzis apreendidos em 2024 no estado tiveram origem norte-americana. Uma ajuda efetiva, portanto, passaria por restringir o tráfico de armas e fortalecer a cooperação internacional contra a lavagem de dinheiro, não por militarizar o discurso.
Desafios Internos e Falta de Urgência
Internamente, o Brasil já demonstrou capacidade técnica e institucional para enfrentar o crime organizado. A Operação Carbono Oculto, conduzida pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Federal, desarticulou o núcleo financeiro do PCC. O Sistema Penitenciário Federal também é referência em segurança máxima.
O problema, contudo, é a falta de uma agenda nacional de segurança pública com sentido de urgência. A demora na tramitação da PEC da Segurança e a ausência de consenso político fragilizam a resposta do Estado, permitindo que facções ampliem seu poder sobre 15% da população brasileira.
A crise da segurança pública, portanto, não é apenas um desafio interno — é também um campo de disputa geopolítica, onde o narcotráfico serve como justificativa para interferências externas.
Proteger o país passa, antes de tudo, por defender sua autonomia diante de interesses internacionais.
Fonte: www.cartacapital.com.br / Redação / Imagem: Nano Banana














