Ausência simultânea dos presidentes da Câmara e do Senado reflete tensão institucional.
A cerimônia de sanção da lei que amplia a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, realizada no Palácio do Planalto, ganhou contornos inesperados. O evento, tratado pelo governo como vitrine de convergência institucional, terminou marcado pela ausência dos presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre.
Os dois foram convidados, mas não apareceram. A ausência conjunta, em um ato de forte apelo popular e resultado de ampla articulação legislativa, foi interpretada como um gesto político calculado que aprofunda o desgaste entre o Executivo e o Congresso.
Sinal público de distanciamento
Embora ausente, Hugo Motta publicou em suas redes sociais que a sanção representava “a união dos Poderes em favor do Brasil”. O tom institucional destoou do clima real de tensão, já que sua ausência foi lida como demonstração de incômodo com a articulação política do governo.
No Senado, a situação seguiu a mesma linha. Davi Alcolumbre mantém descontentamento crescente com a escolha de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. A indicação, feita sem o espaço de negociação que o senador considerava adequado, provocou um rompimento direto com o líder do governo, Jaques Wagner, e motivou reações imediatas no plenário, como a votação de pautas sensíveis sem alinhamento prévio ao Planalto.
Fissuras explícitas
A crise não se limita a episódios isolados. Na Câmara, o relacionamento entre Hugo Motta e o líder do PT, Lindbergh Farias, se deteriorou após sucessivas divergências, da PEC da Blindagem à condução de processos no Conselho de Ética. No Senado, Alcolumbre tem demonstrado disposição de avançar votações que impõem pressão fiscal ou política ao governo, como o projeto que altera regras para agentes de saúde e o debate sobre o PL Antifacção.
Esses movimentos combinados, vistos em sequência, alimentam a leitura de que a relação entre o Legislativo e o Executivo entrou em fase crítica. A presença de antigos caciques políticos — como Arthur Lira e Renan Calheiros, ambos acostumados a tensionar e recompor alianças conforme o vento de Brasília — apenas reforça o contraste entre as práticas tradicionais e o cenário atual, marcado por rupturas explícitas.
Agendas da população
Para o governo Lula, o esvaziamento da cerimônia teve peso simbólico. A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda era tratada como promessa de campanha cumprida. No entanto, o gesto de afastamento dos presidentes das Casas mostrou que, mesmo diante de medidas populares, o Congresso não vê espaço para trégua.
Às vésperas do recesso
Enquanto o governo tenta defender suas entregas e o Congresso mede forças para ampliar sua margem de negociação, a pauta social se desloca para o fim da fila. Políticas públicas que exigem continuidade, investimento e debate ficam suspensas em um cenário de tensão crescente. No fim das contas, quem fica de fora das mesas, das fotos e dos acordos é o cidadão comum, que observa mais uma temporada de impasses em Brasília aumentar a distância entre suas necessidades e as respostas que deveria receber do Estado. Às vésperas do recesso parlamentar, as prioridades se reorganizam, mas nem sempre na direção que a população espera.
Fonte: www.oglobo.globo.com / Redação: Eraldo Costa / Imagem: Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)














