O Paraguai enfrenta uma crise que ultrapassou o sistema financeiro e chegou ao centro do poder político. A intervenção do Ueno Bank, instituição digital que declarava ter aproximadamente 3 milhões de clientes, expôs a dimensão da dependência da população em relação ao banco. Segundo dados divulgados pela própria instituição, sua carteira alcançava mais de 60% dos adultos paraguaios, parcela da população em idade de utilizar serviços bancários.
O alcance do banco é ainda mais significativo porque sua expansão também incorporou ao sistema financeiro pessoas que nunca haviam tido uma conta bancária. A instituição afirmou ter promovido a inclusão financeira de mais de 1 milhão de paraguaios. Com a intervenção do Banco Central, clientes ficaram temporariamente sem acesso a contas, cartões e transferências, enquanto a situação colocou em discussão a segurança de centenas de milhões de dólares em recursos público
Processo de impeachment de Peña
O episódio ganhou dimensão internacional por envolver o presidente Santiago Peña, que anunciou sua renúncia na quinta-feira (5), mas teve a saída rejeitada pelo Congresso. A Câmara dos Deputados aprovou o avanço do impeachment, enquanto o Senado prepara a análise do processo. Peña deverá apresentar sua defesa nesta sexta-feira (6), sob investigação do Ministério Público.
“Master paraguaio”
O caso já é comparado por alguns observadores ao escândalo do Banco Master, no Brasil, pela combinação de problemas financeiros, relações políticas e questionamentos sobre a fiscalização. A comparação, entretanto, é uma referência jornalística, não uma equivalência jurídica ou uma conclusão sobre responsabilidades.
Três milhões de clientes e uma crise de confiança
O Banco Central do Paraguai determinou, em 2 de novembro, a abertura do procedimento de resolução do Ueno Bank. A decisão foi tomada depois que ajustes nas demonstrações financeiras revelaram que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação.
O procedimento prevê a atuação de interventores, a preservação dos ativos e a transferência de depósitos e recursos recuperáveis para outras instituições, antes da liquidação do que não puder ser recuperado.
Segundo a Associated Press, o banco declarava atender aproximadamente 3 milhões de pessoas, o equivalente a mais de 60% da população adulta paraguaia. A dimensão do público atingido ajuda a explicar a repercussão nacional: a paralisação afetou a rotina de trabalhadores, aposentados, comerciantes e empresas que utilizavam os serviços digitais da instituição.
O Banco Central informou que a garantia de depósitos pode alcançar 228,3 milhões de guaranis por pessoa, aproximadamente US$ 38 mil. A estimativa preliminar é que a cobertura seja suficiente para proteger integralmente os saldos de cerca de 97% dos depositantes. O pagamento começou por grupos, inicialmente para clientes com depósitos de até 10 milhões de guaranis, sem dívidas com o banco e com conta habilitada em outra instituição financeira.
Até US$ 850 milhões em recursos públicos
Um dos pontos mais delicados envolve o dinheiro de órgãos estatais. O Ueno Bank informou administrar entre US$ 800 milhões e US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo aproximadamente US$ 380 milhões vinculados ao Instituto de Previdência Social (IPS), responsável por serviços de saúde e aposentadorias no Paraguai.
A exposição desses recursos provocou preocupação entre trabalhadores e aposentados. O IPS informou que os pagamentos dos benefícios seriam mantidos e que os cerca de 32 mil aposentados que recebiam pelo Ueno seriam transferidos para outra instituição.
O Congresso também aprovou medidas para acelerar a devolução dos depósitos e ampliar a proteção dos recursos públicos. A situação, porém, ainda exige apuração sobre a origem das perdas, a qualidade dos ativos e a responsabilidade dos gestores.
Relações políticas e investigação sobre o governo
A crise se agravou diante das ligações entre o grupo empresarial controlador do banco e o presidente Santiago Peña. O chefe do Executivo manteve participação em uma empresa ligada ao Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025.
Outro ponto questionado foi a nomeação de Carlos Carvallo para comandar o Banco Central. Antes de assumir o órgão responsável pela supervisão do sistema financeiro, Carvallo havia presidido a instituição financeira que antecedeu o Ueno Bank. Ele deixou o cargo após a intervenção.
O Ministério Público abriu três linhas de investigação para apurar a fiscalização do banco, a condução da crise e a aplicação de recursos públicos. A Justiça também determinou a prisão de executivos, enquanto autoridades anunciaram acusações contra dirigentes e pessoas ligadas à instituição. As responsabilidades individuais ainda dependem do andamento dos processos.
Peña nega irregularidades e afirmou que colaborará com as investigações. Sua renúncia, apresentada em meio à pressão política, foi rejeitada pelas duas casas do Congresso. A Câmara aprovou o impeachment, e o Senado dará continuidade ao julgamento. Se for afastado, o vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir o comando do país.
Paraguai atrai brasileiros, mas crise muda o cenário
A crise ocorre em um momento de crescimento do interesse de brasileiros pelo Paraguai. O país passou a ser divulgado nas redes sociais como a “Nova Suíça” da América do Sul, apelido associado à carga tributária menor, ao custo de vida, às oportunidades de negócios e à possibilidade de empreender em um mercado considerado menos saturado.
Dados citados pelo UOL, com base em registros migratórios, mostram que o Paraguai recebeu 18.071 pedidos de residência de estrangeiros entre janeiro e março de 2026, alta de 85% em relação ao mesmo período de 2025. Os brasileiros lideraram as autorizações concedidas, com 9.195 residências no trimestre.
Entre os brasileiros que se mudaram recentemente estão Gissely Barcelos e Josias Weber, que deixaram Porto Alegre e passaram a viver em Luque, cidade próxima à capital Assunção. Eles relataram ao UOL vantagens em despesas de moradia e oportunidades profissionais nas áreas de comunicação, marketing e tecnologia. Outra brasileira entrevistada pela publicação, Jackelinne Galhardo, deixou Campo Grande e se estabeleceu em Encarnación.
A atração, entretanto, não significa que o país ofereça vantagens iguais para todos. Especialistas ouvidos pelo UOL apontam que a mudança exige planejamento, reserva financeira e atenção a despesas com saúde, moradia e adaptação. O custo menor pode beneficiar quem recebe renda do exterior ou trabalha remotamente, mas não garante emprego ou poder de compra para quem depende exclusivamente do mercado local.
O sociólogo José Lindomar Coelho Albuquerque, da Unifesp, considera inadequada a expressão “Nova Suíça” e alerta para a romantização do destino em conteúdos nas redes sociais. Para ele, a migração brasileira reúne diferentes perfis e não deve ser tratada como uma onda homogênea.
O que a crise representa para brasileiros
A intervenção no Ueno Bank não significa que todo o sistema financeiro paraguaio esteja em colapso. O próprio Banco Central classificou o episódio como um caso específico da instituição. Ainda assim, a crise levanta questões relevantes para brasileiros que vivem no país, mantêm empresas, recebem salários ou possuem investimentos em instituições paraguaias.
Até o momento, não há um levantamento público consolidado sobre quantos brasileiros estão entre os clientes do Ueno ou sobre o volume de recursos de estrangeiros atingidos. Por isso, não é possível dimensionar com precisão o impacto direto sobre a comunidade brasileira.
O episódio, porém, deixa um alerta para quem escolheu o Paraguai como alternativa econômica: vantagens tributárias e custo de vida não substituem a avaliação da segurança bancária, das garantias de depósitos e da estabilidade institucional.
A crise do Ueno Bank coloca à prova a credibilidade do sistema de fiscalização paraguaio justamente quando o país busca atrair novos moradores, empresas e investidores estrangeiros.
Fonte: Própria | Concepção do Texto: Eraldo Costa | 📷: Policiais fazem a segurança em frente a uma agência do Ueno Bank durante protesto em Assunção, no Paraguai | Crédito: Daniel Duarte/AFP













