A atuação de um jornalista diante de uma denúncia exige método, equilíbrio e clareza de papéis. Quando esses elementos falham, o foco se desloca. A notícia deixa de ser o fato apurado e passa a ser a conduta de quem deveria apenas mediá-lo.
Abordagem inadequada ofusca apuração legítima
O jornalista Maurício Siqueira, ao tentar entrevistar a interventora designada para acompanhar as eleições internas da Associação Comercial e Empresarial de Guarulhos (ACE), gerou mais polêmica com sua conduta do que com a denúncia em si. Em vez de focar nos fatos, o vídeo que circulou nas redes sociais mostra um profissional na defensiva, utilizando argumentos pessoais, como seus “40 anos de carreira“, e apelos religiosos para justificar uma abordagem considerada invasiva.
A credibilidade se perde quando o repórter vira a notícia
No episódio envolvendo a abordagem à instituição, o discurso público posterior do “jornalista” revelou mais tensão do que apuração. Ao insistir em credenciais pessoais, a mensagem transmitida ao público não foi de autoridade profissional, mas de desvio de conduta ética, arrogância e instabilidade emocional. Experiência se demonstra na postura, não na elevação do tom.
Além disso, ao gravar um desabafo dentro de um carro, com ataques pessoais a críticos e zombarias relacionadas à aparência e à dicção alheia, o veterano desviou o foco da apuração para o próprio ego, tratando idade e tempo de serviço como se fossem patente. O bom jornalismo ilumina fatos, não busca ser protagonista. As divergências de ideias devem ocorrer no campo das informações, nunca no da ofensa. Quando isso acontece, a credibilidade é comprometida.
Instituição privada exige respeito aos limites legais
A ACE é uma entidade civil privada. Ainda que existam supostas denúncias, não há direito automático de acesso às suas dependências. O jornalista pode ser solicitado a se retirar e deve fazê-lo. Forçar a permanência em local privado configura risco legal, podendo caracterizar perturbação do trabalho ou invasão de propriedade.
Do ponto de vista legal e ético, é preciso reforçar que a ACE não pode ser transformada em espaço público. Ninguém é obrigado a conceder entrevista, e a recusa deve ser registrada como fato, não enfrentada como obstáculo pessoal. Acusar atendentes publicamente de negar informação, alegando mentira, configura constrangimento e acirra o ambiente, expondo o veículo de comunicação a riscos jurídicos desnecessários.
A Ética como melhor estratégia
O respeito às normas e às pessoas é o que separa o jornalismo sério do espetáculo de confronto hoje amplificado pelas redes sociais. Essa postura não se sustenta apenas na repetição de credenciais ou no tempo de carreira alardeado em vídeos improvisados, mas na conduta adotada diante dos fatos.
O procedimento correto passa por contato prévio, pedido formal de posicionamento e registro técnico. Em caso de negativa, os mesmos critérios e protocolos devem ser observados, com o devido registro dos fatos. Já foi o tempo em que se admitia o “dito pelo não dito”. Há cerca de 40 anos, até se tolerava tal conduta. Hoje, essa postura não é mais aceitável.
Isso protege o jornalista e fortalece a reportagem. Para que a informação chegue ao público com clareza, o repórter precisa ser o canal, não o obstáculo. No bom jornalismo, o profissional é invisível para que a informação apareça. Quando ataques pessoais ocupam mais espaço do que a denúncia, algo sai do eixo. E o público percebe.
A matéria se enquadra no direito constitucional à liberdade de expressão e de crítica, previsto no artigo 5º, incisos IV e IX, da Constituição Federal, amplamente protegido quando há interesse público.
Fonte: Própria / Redação: Eraldo Costa / Imagem: Divulgado nas Redes Sociais














