Funcionários relataram restrições que prejudicaram contas de Lula e recomendações indevidas de conteúdos ligados a Flávio Bolsonaro. TSE exigiu comprovação de tratamento igualitário, enquanto empresa atribui episódios a falhas técnicas
Centenas de pessoas participaram, na segunda-feira (19), de um protesto em frente às sedes da Meta e do Google, na Zona Oeste de São Paulo. Com o lema “Meta, não se meta”, manifestantes e organizações da sociedade civil cobraram transparência, neutralidade na distribuição de conteúdos políticos e mecanismos de fiscalização dos algoritmos usados pelas plataformas digitais.
A manifestação ocorreu em meio à divulgação de mensagens internas de funcionários da Meta que apontam problemas na distribuição de conteúdos relacionados aos candidatos à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Os registros foram revelados pela Folha de S.Paulo e mostram que profissionais da empresa identificaram restrições que prejudicaram a conta de Lula, além de recomendações algorítmicas indevidas de perfis ligados a Flávio.
O caso ampliou o debate sobre a influência de empresas de tecnologia no processo eleitoral, especialmente em uma disputa na qual o alcance digital é um instrumento importante de comunicação entre candidatos e eleitores.
Mensagens internas expõem diferenças no tratamento
Segundo a Folha, em 9 de outubro o perfil oficial de Lula ficou impossibilitado de impulsionar publicações do feed do Instagram por quase 24 horas. Funcionários da Meta reconheceram internamente que a conta estava limitada em comparação à de Flávio Bolsonaro.
A campanha de Lula estimou que cerca de 1,3 milhão de pessoas deixaram de visualizar anúncios em razão da restrição. Esse número é uma estimativa apresentada pela própria campanha, não uma medição independente confirmada pela Justiça Eleitoral.
As mensagens também indicaram que o perfil de Flávio aparecia em recomendações de busca no Instagram, embora as regras eleitorais proibissem a recomendação algorítmica de contas de candidatos. No WhatsApp, buscas relacionadas a um canal de apoio a Lula chegaram a exibir o canal de Flávio Bolsonaro entre os resultados.
A Meta atribuiu os episódios a problemas técnicos e afirmou que as falhas tiveram causas distintas, afetando diferentes contas e anunciantes. A empresa negou favorecer candidatos ou posições políticas e declarou que seus sistemas não são projetados para interferir nas eleições. A campanha de Flávio, por sua vez, afirmou não ter registrado problemas que comprometessem o funcionamento de suas contas.
Inteligência artificial também entra no questionamento
As críticas não se limitam ao alcance das publicações. Testes divulgados pela coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, apontaram respostas diferentes da Meta AI, ferramenta integrada ao WhatsApp, diante de pedidos semelhantes para produzir imagens de campanha.
Em um dos testes, a ferramenta recusou criar um cartaz com a expressão “Lula 13”, mas produziu uma peça com “Flávio 22”, acompanhada de termos como “compromisso”, “trabalho” e “renovação”. A discrepância levou a novos questionamentos sobre a aplicação dos filtros automáticos de inteligência artificial.
Os resultados indicam inconsistências no funcionamento da ferramenta, mas não comprovam, isoladamente, uma decisão deliberada da empresa para beneficiar um candidato. A Meta informou que adotou medidas para impedir a geração de imagens e a recomendação de candidaturas, em cumprimento às regras eleitorais brasileiras.
TSE exige tratamento igualitário
Diante das denúncias, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que a Meta evite reduzir a distribuição de publicações, restringir buscas ou recomendar indevidamente conteúdos relacionados aos candidatos à Presidência.
Em 16 de outubro, o tribunal manteve a ordem por unanimidade, com previsão de multa diária de R$ 500 mil em caso de descumprimento. No dia 19, o ministro Marco Aurélio Bellizze deu novo prazo de 24 horas para a empresa comprovar que assegurava tratamento igualitário às candidaturas.
A decisão não concluiu que houve manipulação intencional dos algoritmos. O objetivo é impedir que falhas ou critérios desiguais prejudiquem a distribuição de conteúdo eleitoral e assegurar condições equivalentes às candidaturas.
Transparência é o centro da discussão
No protesto em São Paulo, organizações da sociedade civil cobraram acesso a informações sobre os critérios de moderação, distribuição de publicações e funcionamento dos sistemas de recomendação. Os participantes também defenderam mecanismos de fiscalização independente e canais efetivos para contestar bloqueios de contas.
A discussão ultrapassa a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Facebook, Instagram, WhatsApp e ferramentas de inteligência artificial são utilizados para informar eleitores, divulgar propostas e organizar campanhas. Quando seus sistemas apresentam resultados diferentes para situações semelhantes, torna-se necessário esclarecer os critérios utilizados e permitir a verificação independente dos procedimentos.
As mensagens internas divulgadas pela imprensa, os testes com inteligência artificial e as decisões do TSE dão materialidade aos questionamentos sobre o funcionamento das plataformas. Ainda assim, é necessário distinguir falhas documentadas, efeitos desiguais e eventual intenção de favorecer uma candidatura, que exige provas específicas.
O desafio para a Justiça Eleitoral é garantir que as regras sejam cumpridas antes da votação, quando ainda é possível corrigir eventuais prejuízos. Para a sociedade, permanece a cobrança por transparência e responsabilidade das empresas que controlam parte significativa da comunicação política digital.
Fonte: Folha de S.Paulo e Agência Brasil | Concepção do Texto e Imagem: Eraldo Costa | 📷: IA | Gemini













