Levantamento da revista piauí, realizado com apoio do InterSecLab, analisou 41,6 mil registros de conversas e ligações do ex-banqueiro. Figuras de direita concentraram 90% das interações identificadas
Uma análise dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, revelou que 71% das interações políticas registradas no aparelho envolveram ex-integrantes do governo Jair Bolsonaro (PL). O levantamento foi publicado pela revista piauí em 19 de outubro de 2026, em parceria com o InterSecLab, organização especializada em segurança digital.
Os pesquisadores examinaram 41,6 mil interações pelo WhatsApp, incluindo mensagens de texto, áudios, imagens, vídeos e ligações. Desse total, 90% envolveram figuras classificadas como de direita, 9% políticos de centro e 1% de esquerda.
A Polícia Federal extraiu os dados do aparelho em 18 de novembro de 2025, um dia após a primeira prisão de Vorcaro. O material permitiu mapear contatos com políticos, ex-integrantes do governo e autoridades que ocuparam cargos públicos.
Quem aparece entre os principais interlocutores
Entre os ex-integrantes do governo Bolsonaro com maior volume de interações estão o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, com 19,3 mil registros; o ex-advogado-geral da União Bruno Bianco, com 4.782; e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro-chefe da Casa Civil, com 3.967.
Também aparecem nos registros Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação Social da Presidência; João Roma e Ronaldo Bento, que ocuparam o Ministério da Cidadania; e Mário Frias, ex-secretário especial da Cultura.
O levantamento identificou 56 políticos como interlocutores de Vorcaro. Desse grupo, 36 foram classificados como integrantes da direita, 16 do centro e quatro da esquerda. A classificação considera o posicionamento político atribuído aos interlocutores, enquanto os percentuais de 71% e 90% se referem ao volume de interações.
Mensagens apagadas e relações comerciais
Parte dos registros não pôde ser recuperada integralmente porque as mensagens eram temporárias ou haviam sido apagadas. No caso de Fábio Faria, por exemplo, 7,9 mil das 19,3 mil interações não puderam ser lidas na cópia analisada pela reportagem.
A investigação jornalística também identificou conversas relacionadas a negócios, articulações políticas e propostas legislativas de interesse do Banco Master. Entre os episódios descritos estão discussões sobre mudanças nas regras de socorro e liquidação de instituições financeiras e contatos relacionados à captação de recursos de regimes de previdência estaduais e municipais.
Os registros, contudo, precisam ser analisados individualmente. A existência de conversas ou ligações não comprova, por si só, prática ilegal, favorecimento indevido ou participação em irregularidades.
O que dizem os envolvidos
Procurado pela revista, Bruno Bianco afirmou que as interações ocorreram no exercício regular da advocacia e que conheceu Vorcaro mais de um ano depois de deixar o serviço público.
Fábio Faria declarou que conheceu o empresário no fim de 2023, quando já atuava na iniciativa privada, e negou que os contatos tivessem ocorrido durante o período em que ocupava cargo no governo.
Fabio Wajngarten afirmou que foi contratado pela defesa de Vorcaro para cuidar da comunicação do ex-banqueiro. Outros interlocutores também apresentaram explicações relacionadas a atividades profissionais e comerciais.
A reportagem procurou as 56 autoridades identificadas, e parte delas não respondeu até o fechamento do levantamento.
Os dados acrescentam informações sobre a rede de relacionamentos políticos e empresariais de Vorcaro, mas não autorizam concluir que todos os contatos tiveram a mesma finalidade. O conteúdo das conversas preservadas, as respostas dos envolvidos e os elementos de eventuais investigações precisam ser considerados separadamente.
Fonte: Revista piauí e InterSecLab | Concepção do Texto e Imagem: Eraldo Costa | 📷: IA | Gemini













